Caseirinho - o clássico
- karinaalfenas

- há 14 horas
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Se existe algo que define bem a vida a dois é a combinação: café fresco + pão quentinho.
E ninguém incorpora essa equação melhor do que meu marido, Meu marido ama pão. Mas não é “ah, gosto de pão”. É amor declarado, sincero, quase dramático. E foi num dia desses que ele soltou, com a naturalidade de quem pede um copo d’água:— “Faz um pão caseirinho?”Eu poderia ter fingido que não ouvi. Poderia ter sugerido a padaria da esquina. Poderia não ter me lembrado que tenho um saco de 25 kg de farinha argentina 000 me encarando diariamente como um compromisso sério. Mas não. Eu fui. Porque, convenhamos, se você tem 25 kg de farinha em casa, você não tem escolha. Você tem destino.
E lá fui eu para mais uma aventura panificadora. Antes de colocar a mão na massa (literalmente), eu sempre gosto de lembrar que o pão é um dos alimentos mais antigos da humanidade. Muito antes de fermentos industrializados, muito antes de fornos elétricos, já existia alguém misturando farinha e água e colocando sobre uma pedra quente. Os egípcios dominaram a fermentação natural há milhares de anos, transformando aquela mistura básica em algo leve, aerado, quase mágico. Desde então, o pão atravessou civilizações, guerras, impérios e mesas de café da manhã.E agora atravessava a minha cozinha, acompanhado de uma taça de espumante. Porque sim — eu amo bebericar enquanto cozinho. E naquele momento, segurando minha taça, pensei: “Espumante lembra pão, não lembra?” O aroma de fermentação, aquela nota levemente tostada… ou será que eu estava romantizando demais? Não sei. Mas funcionou lindamente como trilha sonora líquida da receita.

Ingredientes:
500 g de farinha de trigo (não precisa ser a 000, pode ser qualquer outra farinha)
10 g de sal
10 g de açúcar
7 g de fermento biológico seco (ou 20 g fresco, se você for tradicionalista)
300 ml de água morna (mornaaaaa, não é quente)
Esta foi mais uma receita do site Amo Pão Caseiro – amopaocaseiro.com.br/receita/pao-caseiro-tradicional/)
Comecei misturando a farinha com o sal e o açúcar na tigela da batedeira. Enquanto isso, dissolvi o fermento na água morna e observei aquele despertar silencioso das leveduras, como se a cozinha tivesse ativado um modo ancestral. Despejei a mistura líquida sobre a farinha e, diferente da tradição de sovar à mão por longos minutos, escolhi a praticidade tecnológica: encaixei o gancho e deixei a batedeira trabalhar por quase vinte minutos. Vinte minutos hipnóticos. Eu ali, com minha taça de espumante na mão, assistindo à massa se transformar de algo pegajoso e desorganizado para uma estrutura lisa, elástica e perfeitamente desenvolvida. A farinha 000 mostrou novamente sua personalidade: a massa ficou sedosa, com excelente desenvolvimento de glúten, firme sem ser pesada. Há algo de muito satisfatório em ver a estrutura se formar diante dos seus olhos. Depois do primeiro descanso, de uns 40min (ou até dobrar de volume), dividi em 4 pedaços e veio a parte que a receita original sugere: abrir a massa no cilindro. Eu até tentei. Passei duas peças pelo cilindro, curiosa para observar o comportamento da rede de glúten sob compressão mecânica. O cilindro organiza as fibras, alonga a massa de forma uniforme e promove uma degaseificação mais intensa. Tecnicamente, ele cria uma estrutura mais alinhada, com alvéolos menores e distribuição mais regular. Mas aí entra o detalhe interessante. Ao abrir a massa manualmente, com pressão mais delicada e menos repetitiva, há menor expulsão dos gases formados na primeira fermentação. A rede de glúten sofre menos compressão e preserva melhor as bolhas de ar internas. O resultado? Uma textura mais leve, miolo mais macio e sensação de maior fofura. E isso ficou evidente. Você vai notar na foto: os pães lisinhos foram abertos à mão. Os dois enrugadinhos passaram pelo cilindro. Os do cilindro ficaram mais estruturados, porém ligeiramente mais densos. Os modelados manualmente ficaram mais fofinhos, com miolo mais delicado e expansão mais generosa no forno. Foi uma pequena aula prática sobre degaseificação e retenção de gases — daquelas que nenhum livro explica tão bem quanto a própria bancada. Modelei todos, deixei crescer novamente até dobrarem de volume e levei ao forno preaquecido a 180ºC. E então veio aquele perfume de pão assando, que se misturava às notas fermentativas do espumante que eu ainda bebericava. Aliás, não sei se o espumante lembra pão ou se o pão lembra espumante — ambos compartilham o mesmo princípio mágico: fermentação. Leveduras trabalhando silenciosamente para transformar simplicidade em complexidade. Quando o pão saiu do forno, dourado, leve e com casca delicadamente crocante, ficou claro que a mão, às vezes, é mais gentil que a máquina. E que ciência e prazer podem, sim, dividir a mesma taça.
E a verdade é que, com esse saco de 25 kg na despensa, essa não será a última aventura. Ah, e olha o caseirinho na chapa no dia seguinte!





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